Nunca colocar os ovos todos no mesmo cesto

O primeiro conselho a ter em conta no momento de investir é a diversificação, ou seja, nunca colocar os ovos todos no mesmo cesto. Assim, um investidor ou aforrador, que não disponha de tempo para dedicar à análise dos vários instrumentos e activos financeiros que existem, deverá procurar activos de investimento colectivo, como, por exemplo, os fundos de investimento ou os Exchange Traded Funds – ETF.

Por Miguel Gomes da Silva, Head of Treasure and Trading Montepio Geral.

A panóplia de activos onde investir é imensa. Existem milhares de fundos de investimento, ETF, cabazes de activos de rendimento fixo e variável, produtos estruturados, seguros de capitalização, produtos mutualistas, depósitos… Para um investidor que não procure a especulação, o melhor mesmo é ter um pouco de cada, procurando construir uma carteira diversificada do ponto de vista de exposição geográfica e sectorial.

Definir e estruturar uma carteira de investimento, que tire partido dos momentos de subida das bolsas e simultaneamente possua uma estratégia que a defenda dos ciclos de baixa, é talvez o maior paradigma de qualquer gestor de carteiras. Qual a composição ideal de um portefólio? Qual o peso a considerar na exposição às diferentes classes de activos? Quais os títulos a escolher?

De facto, não existe uma carteira ideal. Existem várias. Tudo depende do seu perfil de risco e da sua autodeterminação em alcançar um objectivo, como, por exemplo, ganhar dinheiro rapidamente, ou de forma sustentada, ao longo de um horizonte temporal mais lato.

Um dos primeiros passos a seguir por um investidor será dividir o montante total disponível para investir por várias geografias e sectores de actividade, com preponderância para as economias mais desenvolvidas, mantendo uma exposição reduzida aos países emergentes. Poderá adicionar alguns ETF de commodities, como o ouro ou o petróleo, e ainda fundos de investimento imobiliário com activos situados em zonas prime e fundos de capital de risco com exposição diversificada por várias tecnológicas e startups. Em qualquer um dos casos, é fundamental manter sempre alguma liquidez imediata disponível, para investir caso surja uma oportunidade inesperada, como uma forte correcção do mercado, por exemplo, que gere interessantes negócios de compra.

A carteira ideal existe?

Podíamos deixar aqui a sugestão para a construção de uma série de portefólios diferentes, em que cada um deles constituiria uma hipótese de investimento para cada perfil de investidor. No entanto, não nos parece ser esse o valor acrescentado deste artigo. Queremos que pense por si e que descubra qual a sua carteira ideal e que melhor vai ao encontro dos seus objectivos.

O quadro-exemplo tenta ser o mais abrangente possível, privilegiando um perfil de risco de investimento entre o moderado e o agressivo.

Os intervalos de valores de ponderação na carteira de investimentos, sugeridos no quadro-exemplo, devem ser interpretados como uma indicação. Estas percentagens devem ser ajustadas de acordo com o seu perfil de risco e do ciclo de mercado em que nos encontramos.

Por exemplo, quando este ano a Reserva Federal norte-americana (FED) iniciou um movimento de subida de taxas do dólar, a exposição aconselhada a obrigações de taxa fixa em dólares deveria rondar os 0%, pois o aumento das taxas de juro tem como consequência uma descida do preço das obrigações de taxa fixa. Neste contexto, deverá privilegiar-se o investimento a taxa variável.

Relativamente às acções, se considerarmos que nos próximos trimestres o crescimento da economia europeia apresentará uma melhor performance que a norte-americana, faz sentido que se inclua uma ponderação de acções europeias próximas do máximo do intervalo, e de acções dos Estados Unidos mais perto do valor mínimo do intervalo. O inverso será válido para quando for expectável que a economia norte-americana se apresente mais saudável do que a europeia.

Poderemos ser levados a pensar que, se se perspectivar um mau ano em termos bolsistas, então o melhor será vender toda a carteira de acções e aguardar por uma melhor conjuntura. Acontece que não é fácil detectar qual o momento em que as bolsas atingem os valores mais baixos, para voltar a entrar no mercado. E com este compasso de espera, podemos perder o comboio da recuperação dos mercados. Por isso, ficar totalmente fora do mercado não é solução, para investimentos a médio e longo prazo. Uma saída possível será reduzir a exposição a acções e reforçar outras classes de activos mais defensivas, como as obrigações, ou ainda optar por instrumentos financeiros onde se esperem melhores rentabilidades, como as commodities. Outra solução poderá ser optar por acções defensivas. Estas acções são normalmente descorrelacionadas com a actividade económica, ou seja, a sua performance não está directamente ligada ao ritmo de crescimento da economia. É o caso de empresas que prestem serviços indispensáveis, como o fornecimento energético ou as indústrias alimentares.

Empresas como a Jerónimo Martins, a REN e a EDP em Portugal, a Iberdrola e a Endesa em Espanha, o Carrefour em França ou a E.ON na Alemanha são empresas cujas acções não sofrem tanto, quando as praças financeiras atravessam momentos difíceis. O reverso da medalha é que, por norma, estas empresas sofrem durante o bull market.

A diversificação está igualmente ligada ao investimento em diferentes classes de activos. Lembre-se que, às vezes, há pormenores que marcam a diferença… E estes pormenores podem encontrar-se nas classes de activos menos familiares ao investidor comum, como o investimento em private equity, em hedge funds ou em commodities. Por uma questão de prudência, os valores recomendados para o investimento nestes activos não são muito elevados, já que a preservação do património é um factor importante para um gestor de carteiras. Contudo, saiba que, numa alocação de activos para um portefólio, a ponderação recomendada para investimento em private equity pela Universidade de Yale é de 15%. Este facto evidencia a maior apetência para activos de maior risco por parte dos investidores norte-americanos.

A idade é um factor determinante no momento da escolha da carteira de investimentos que queremos ter. Por exemplo, para um jovem de 30 anos, que inicia a constituição de uma carteira, é aconselhável adquirir uma maior percentagem de títulos de rendimento variável, como as acções ou fundos de investimento de acções, pois a probabilidade de obter maiores retornos a longo prazo é superior à do investimento em obrigações ou depósitos a prazo.

Pelo contrário, alguém de idade mais avançada deverá ter em atenção o risco e, por conseguinte, deverá privilegiar títulos de maturidade mais curta e com rendimento fixo, como os depósitos, as obrigações ou os produtos de capital e rendibilidade mínima garantida. Ainda assim, as percentagens a alocar às várias classes de risco deverão ser diferentes. Um investidor mais jovem deverá optar por maior exposição a classes de risco mais elevadas, por contraponto ao posicionamento de alguém mais velho, que deverá ter como principal preocupação a preservação do capital.

6 conselhos úteis para um portefólio equilibrado

  1. Esteja atento às entidades reguladoras oficiais que supervisionam o mercado, como a Comissão de Mercado de Valores Mobiliários ou o Banco de Portugal.
  1. Cuidado com os boatos. Estar atento à contra-informação, que frequentemente invade as notícias financeiras, e evitar ser vítima de uma onda especulativa podem ajudá-lo a construir uma carteira de investimento equilibrada e rentável.
  1. Atenção às “modas”. É aconselhável contextualizar temporalmente a empresa que está a pensar comprar. Às vezes existem determinadas acções que entram na “moda”, movimentando volumes muito significativos de títulos. Contudo, algum tempo depois, podem cair no esquecimento dos investidores, e tornarem-se autênticos “monos”. A consequência é a redução de liquidez, com o consequente aumento de risco de queda sem recuperação.

Esta situação aconteceu em Portugal no final dos anos 90, em que várias empresas realizaram o seu IPO, tendo sido admitidas a cotação, mas cujo interesse rapidamente se desvaneceu. Nos Estados Unidos, a moda das tecnológicas traduziu-se numa autêntica sangria quando a “bolha” estoirou no início do século XXI. Milhares de falências deixaram milhões de investidores numa situação complicada.

  1. Evite entrar em pânico numa conjuntura de crise. Historicamente, a performance das acções é cerca de 6% a 8% superior à de um activo de menor risco, como as obrigações. Portanto, se a sua carteira é uma carteira equilibrada, com títulos sólidos e de empresas de grande capitalização, não entre em depressão quando as coisas correm menos bem. Uma coisa é uma atitude de trading activo, outra é uma carteira de investimento de longo prazo. Neste caso, as decisões de en trada e saída de uma acção não têm que ser tão drásticas. Lembre-se que tudo o que sobe desce, mas… tudo o que desce apenas volta a subir se tiver qualidade e argumentos de suporte.
  1. Acompanhe de perto o trabalho do seu gestor dedicado e seja um crítico construtivo. Praticamente todos os bancos e sociedades financeiras possuem o serviço de gestão de carteiras. Este serviço é, regra geral, de qualidade, mas nem sempre é isento. O aconselhamento financeiro requer um elevado grau de independência e segurança por parte de quem o pratica.
  1. Preservação do capital. Certifique-se que, quando optar por um produto de capital garantido, está realmente a investir numa estratégia em que o seu capital está protegido na maturidade e quem o garante. Evite investir por um período superior a três anos neste tipo de produtos, em que apenas o capital é garantido, não tendo uma rentabilidade mínima associada.

Carteiras ajustadas ao ciclo de vida

Se a diversificação deverá ser uma das regras a seguir por quem investe, independentemente da idade, é igualmente verdade que construir uma carteira com 30 anos é diferente de investir aos 50. Um investidor mais jovem deverá optar por maior exposição a classes de risco mais elevadas, por contraponto ao posicionamento de alguém mais velho, que deverá ter como principal preocupação a preservação do capital. Activos como depósitos a prazo, títulos de dívida pública e fundos de tesouraria estão associados a um risco baixo ou médio baixo, enquanto activos, como acções ou fundos de investimento em acções, tendem a assumir uma elevada volatilidade, logo, um maior risco. Por isso, para uma carteira de investimentos estar bem diversificada, terá que deter acções de outras praças financeiras, além da portuguesa e de outros mercados, obrigações, por exemplo – que poderão ser soberanas ou de empresas – e depósitos a prazo.

Convém ter sempre presente que diversificar não depende só da idade de quem está a construir a carteira de investimento. O perfil de investidor, os seus objectivos, o dinheiro que está disposto a aplicar, também são determinantes na diversificação a fazer.

Na prática, trata-se de repartir as aplicações financeiras e o montante de investimento por diferentes activos com o objectivo de manter uma maior protecção face ao risco de oscilações negativas de alguns produtos financeiros.  A diversificação ajuda a reduzir este mesmo risco e a probabilidade de ver encolher o montante investido. Imagine que um dos seus investimentos está a perder dinheiro. Se tiver todo o seu capital aplicado nesse produto ficará exposto a largas perdas. Se tiver repartido o dinheiro por mais produtos e activos, então terá uma maior probabilidade de suportar melhor as descidas no valor, já que o impacto tenderá a não ser tão negativo em todas as parcelas dos seus investimentos.

A experiência mostra que quem distribuiu as poupanças por vários instrumentos sofreu menos do que quem investiu apenas numa classe de activos. Além disso, é também possível estabelecer uma relação entre a diversificação e a idade. A relação é simples – quanto mais a idade avança, mais cedo será expectável a necessidade de transformar esses activos em dinheiro, logo, menor deverá ser o risco desses mesmos activos para atenuar, ao máximo, a volatilidade de preços e evitar surpresas desagradáveis no momento da venda.

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