Fazendo figas que dure

Por Paulo Carmona

Claro que a recuperação ainda é frágil, mas existe. O emprego criado ainda é maioritariamente precário, nos serviços apensos ao turismo, restauração, ou hotelaria, e os outros sectores da Economia estão pouco dinâmicos a ver o que isto vai dar

Finalmente o crescimento. Não é tão bom como outros países nossos parceiros, nomeadamente Espanha, mas é um excelente nível tendo em conta o nosso passado. Em 15 anos crescemos em média 0,3% ao ano, ou seja, empobrecemos face à média europeia, fomos ultrapassados por outros países do Leste da Europa, estagnámos o crescimento de salários e a riqueza produzida.

É verdade que a recuperação de salários e rendimentos começou em 2013, depois da crise de 2010/2013, entre PECs e Memorando, mas só a partir de meados do ano passado é que isso foi traduzido em termos de crescimento do PIB. Claro que o Turismo deu aqui uma grande ajuda e o Governo ajudou. Ajudou… não fazendo nada. Ou seja, manteve as reformas liberalizadoras do secretário de Estado anterior, Adolfo Mesquita Nunes, e o excelente trabalho do Turismo de Portugal, deixando que a vinda a Lisboa ficasse na moda, com boas razões.

Por vezes, uma boa medida é não fazer nada. E o Estado, por vezes, na ânsia de fazer o bem ou melhorar as coisas, acaba por estragar… reparem que no sector mais importante para os portugueses, o da alimentação, o Estado está ausente. Não produz nem vende comida nem diz ao padeiro o que produzir e a que preço vender ou o que o supermercado deve colocar nas prateleiras… claro que a vontade existe, mas até agora, e com a ajuda da União Europeia, ainda não se passou de questões securitárias ou sanitárias. Porque também os burocratas de Bruxelas já meteram a sua colherada no diâmetro e comprimento das frutas e dos legumes. Claro que a recuperação ainda é frágil, mas existe.

O emprego criado ainda é maioritariamente precário, nos serviços apensos ao turismo, restauração, tuk tuks ou hotelaria, e os outros sectores da Economia estão pouco dinâmicos a ver o que isto vai dar. O investimento é basicamente em material de transporte, aviões e veículos automóveis, via crédito ao consumo ou rent-a-cars, mas pode ser que seja o início.

Os empresários estão a aproveitar a maré, aproveitar enquanto há, enquanto alguns se debatem com questões complexas de endividamento e financiamento. A acrescentar a isso há alguma desconfiança, já houve mais, na fórmula governativa chamada de geringonça.

Os dois partidos que a apoiam não gostam de empresários, preferem a Venezuela ou a Coreia do Norte, e a qualquer altura tomam uma iniciativa parlamentar para distribuir tudo, incluindo dívida, matando as galinhas para a canja, mas exigindo depois ovos para as omeletas. Complicado…

Este artigo foi publicado na edição de Setembro de 2017 da revista Executive Digest.

Recomendar
  • gplus
  • pinterest