Ai se eu fosse jovem…

Por Paulo Carmona

Se fosse jovem teria muito a dizer, lutar, exigir discussão destes temas, ou emigrar… nenhum destes problemas lá fora existe com esta dimensão

As perspectivas de emprego são sombrias, pois muitas empresas estão sobredimensionadas, em processo de reestruturação e em ganhos de produtividade. Produzir mais com menos. A taxa de bancarização está a baixar para níveis europeus, depois de alguma bolha, os investimentos estão parados, para lá dos relacionados com o turismo, recuperação de imóveis para venda a estrangeiros e algum de reposição. As manutenções, substituições de equipamento e o investimento em aumento da capacidade produtiva vão sendo adiados para dias em que o futuro seja politicamente menos nebuloso e ideologicamente mais amigo das empresas privadas.

Quanto ao Estado, com servidores envelhecidos, foi ocupado pela geração anterior em sucessivas vagas de amizades políticas entre os partidos que ocuparam o poder. Sobra muito pouco porque o importante é reduzir o número de funcionários públicos para cumprir metas orçamentais, embora desde 2015 que o seu número tem aumentado. Esta porta, até para um saudável rejuvenescimento do aparelho do Estado, está fechada. Os jovens de hoje chegaram tarde.

Se por acaso conseguir emprego será sempre na zona dos 500 euros, ligeiramente acima do RSI – Rendimento Social de Inserção, mas com mais trabalho, mais despesas de roupa e alimentação e menos regalias. O que normalmente acontece é o empreendedorismo. Ou seja, iniciar um negócio, sozinho ou com amigos, normalmente na área do turismo, tuk-tuks, bares ou restaurantes, guias, etc. Tem sido esta atomização de serviços que tem transformado as nossas cidades e Portugal num local cada vez mais atractivo para o turismo. Contudo o pior está para vir. Daqui a 10/20 anos, a meio da sua vida profissional que esperemos todos ter evoluído melhor, tem dois pesos em cima.

Uma dívida pública brutal, que tem aumentado todos os anos, em Junho deste ano bateu novo recorde nos 250 mil milhões de euros. Uma dívida acumulada nos últimos 20 anos desde a adesão do euro e que hipoteca o futuro das próximas gerações. Como sabemos, a dívida pública são impostos futuros que terão de aumentar, ou não baixar, para liquidar juros ou amortizar dívida conforme os compromissos assumidos em Maastricht, 2% ou 3,5 mil milhões ao ano que os jovens de hoje terão de pagar com os seus impostos no futuro. Dinheiro que foi usado para manter um nível de despesas do Estado, consumo e muito pouco investimento.

Uma segurança social desequilibrada, que por efeitos demográficos e de má gestão do sistema fará com que cada dois jovens terão de suportar um pensionista com os seus impostos. Pensionistas que descontaram e que o Governo não arrecadou, antes pagou pensões a quem não tinha descontado, no início do sistema. Um sistema de solidariedade intergeracional, muito pouco solidário e cada vez mais um esquema Ponzi que prejudica os últimos a entrar…

Se fosse jovem teria muito a dizer, lutar, exigir discussão destes temas, ou emigrar… nenhum destes problemas lá fora existe com esta dimensão.

Este artigo foi publicado na edição de Agosto de 2017 da revista Executive Digest.

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