A Banca do futuro

Por João Duque, professor catedrático de Finanças do ISEG

Caro leitor, comecemos por testar a sua cultura financeira da área bancária:

Qual a “nacionalidade” do maior banco do mundo em 31/12/2016, medido através do total dos seus activos? Escolha a alternativa que lhe parece certa: A) Americana; B) Europeia; C) Chinesa; D)Indiana; E) Japonesa. Se respondeu C, acertou! Se não acertou não desespere pois tem outra oportunidade.

Qual a “nacionalidade” do 2.º maior banco do mundo em 31/12/2016, medido através do total dos seus activos? (Use a mesma escala de alternativas) Se respondeu C, acertou! Se não acertou não desespere pois tem outra oportunidade. Qual a “nacionalidade” do 3.º maior banco do mundo em 31/12/2016, medido através do total dos seus activos? Se respondeu C, acertou! Se não acertou não desespere pois tem outra oportunidade. Qual a “nacionalidade” do 4.º maior banco do mundo em 31/12/2016, medido através do total dos seus activos? Se respondeu C, acertou!

Se não acertou não desespere pois tem outra oportunidade… Vamos parar o jogo, está bem? Estava monótono… A lição é simples: os quatro maiores bancos do mundo são chineses. E isso incomoda-os? Não me parece. Grandes economias terão de ser suportadas por grandes instituições financeiras, mas quando essas economias são assentes em leis de mercado com uma banca comercial activa privada, a dimensão assusta pois já conhecemos a grande lição apreendida pela falência do Lehman Brothers: “Too big to fail”. Por isso a banca americana, apesar de muito grande em termos de número de instituições e até em ter mos das maiores, elas não são tão grandes como as do bloco europeu. E isso defende o mercado e o tax payer americano.

Se comprarmos os 50 maiores bancos de ambos os blocos (EUA e Europa) verificamos que o maior banco americano é sensivelmente da dimensão do maior banco europeu medidos pelo Activo Total. Mas o 10.º banco europeu já tem quase o triplo da dimensão do triplo americano, o 25.º banco europeu é 3,5 vezes maior do que o correspondente americano e o 50.º europeu é quase o quíntuplo do correspondente americano.

A soma do total dos activos bancário dos 50 maiores bancos europeus é o dobro da correspondente soma do total do activo dos 50 maiores bancos americanos. Isto é, na Europa os bancos são muito maiores do que nos EUA o que representa um risco sistémico maior e uma maior intermediação financeira através da banca do que no espaço americano. A nossa CGD que na Europa não passa do 61.º maior banco, seria o 36.º americano! Isto é, na Europa usa-se a banca como destinatário preferencial de captação de poupança. O aforrador quando poupa vai ao banco e coloca-a em depósitos…

Uma vez que a segurança dos depósitos é uma das maiores preocupações dos reguladores e políticos, o problema e o nível de preocupação no que a estes respeita é maior na Europa do que nos EUA.

Significa isso que os EUA não conseguem fazer chegar a poupança ao investimento? Não! Muito pelo contrário! A poupança converge muito facilmente para o investimento, embora não de forma tão intermediada pela banca quanto na Europa. Isto é, as empresas emitem instrumentos de dívida ou de capital próprio que são directamente tomados pelo aforro embora não sob a forma de depósitos.

Para dar uma ideia da dimensão relativa dos mercados de capitais tomemos a capitalização bolsista das maiores bolsas europeias e americanas. A capitalização bolsista de um título corresponde ao que teríamos de pagar se quiséssemos comprar todos os títulos cotados de uma empresa ao actual preço de mercado. No caso em apreço estamos a falar de todos os títulos de todo o mercado. No caso, a capitalização bolsista das maiores bolsas americanas é o dobro da capitalização bolsista das bolsas europeias. Isto é, precisamente a relação inversa do que se passa na dimensão do total dos activos dos bancos nos dois blocos económicos!

Se aumentarmos o financiamento das empresas por via do mercado de capitais reduzindo a intermediação bancária da economia, aumenta-se a remuneração do aforrador e embaratece-se o custo do financiamento para as empresas.

Por outro lado, aumenta a responsabilidade da poupança pois esta deixa de poder exigir que o Estado lhe assegure a restituição do capital para além do que está estabelecido pelo Fundo de Garantia de Depósitos como tem sido habitual até aqui, com particular destaque para Portugal…

Sabemos que a tecnologia e a sua adopção por parte de um grande número de clientes bancários mata a necessidade de agências físicas e de empregados de balcão. Mas o aumento da desintermediação bancária e o aumento da responsabilidade da poupança conduz a um crescimento de actividades de aconselhamento e gestão de investimentos. Por isso, e desde que o homem continue a preferir um contacto humano no que respeita ao conselho de investimento, muitas das pessoas que estão hoje a ser redundantes na banca poderão transitar para outro tipo de actividades ainda relacionadas com o aconselhamento, com a poupança e com a escolha criteriosa do investimento. Apenas devemos criar os mecanismos para que, quer investidores quer empresas, se encontrem do modo mais eficiente, seguro e esclarecido, acompanhando este movimento do mercado primário com os mecanismos do mercado secundário, para darmos garantias de liquidez e segurança aos aforradores.

Tal movimento dentro do mercado de trabalho financeiro parece óbvio, a menos que dentro de uns anos apenas robots estejam a receber-nos aos balcões virtuais das instituições bancárias para nos sugerirem a compra de uma obrigações que outro robot vai adquirir para financiar uma empresa gerida por robots e cuja actividade é a de produzir novos robots que substituirão os que então nos estão a atender…

Este artigo foi publicado na edição de Julho de 2017 da revista Executive Digest.

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