Nem tudo o que parece é… Espero que ainda estejamos a tempo

Sempre que tenho o privilégio de ser convidado para contribuir nesta coluna, tenho tido como princípio não escrever sobre energia e especificamente sobre a indústria petrolífera, tratando-se da área em que opero.

Por Pedro Oliveira, presidente da BP

Desta vez não resisti à tentação de comprometer esse meu princípio, uma vez que penso ser especialmente actual e do interesse dos leitores, dar pistas simples para reflectirmos pragmaticamente sobre uma área transversal ao nosso dia-a-dia e que ultimamente por boas e más razões tem andado nas “bocas do Mundo”.

A indústria petrolífera, nomeadamente o sector da energia em geral, está a passar por uma das fases mais desafiantes e interessantes da sua história.

Estes momentos caracterizados por alterações de paradigma são oportunidades para todos os agentes económicos, sociais e políticos, ou ao contrário podem acabar em enormes oportunidades perdidas, com consequências desastrosas para todos.

Tentemos então enquadrar de maneira resumida e no curto espaço que esta coluna nos reserva, alguns vectores que estão subjacentes à dita alteração de paradigma.

Independentemente das ordens de razão, será consensual que diminuir o nível de emissões em geral nocivas (deixando a problemática do ambiente para os especialistas) é uma obrigação de todos os agentes que estão na origem das mesmas. Será também consensual admitir que a queima de combustíveis fósseis é um factor que contribui para as ditas emissões, apesar de bastante menos do que é voz corrente, especialmente no que diz respeito à mobilidade (responsável por cerca de 25% das emissões).

Voltando ao que nos trouxe a esta coluna, será também consensual admitir que o preço do crude é a variável de toda a equação energética que condicionará a dinâmica e maior ou menor viabilidade de fontes de energia alternativa. Para tal, convém relembrar que as variáveis que sempre condicionaram o preço do petróleo estão, neste momento e provavelmente para sempre, comprometidas e, nesse sentido, valerá a pena revisitar as ditas variáveis inerentes ao preço do crude.

Em primeiro lugar, a percepção de escassez de crude que esteve sempre subjacente à construção do preço não passa, de facto e cada vez mais, de uma percepção na medida em que nos últimos 35 anos se descobriram dois barris de crude explorável por cada barril consumido. Esse facto trouxe-nos a uma posição em que o Mundo tem hoje reservas de petróleo comprovadas e exploráveis, para fazer face ao dobro das nossas necessidades até 2050. Com o desenvolvimento do shale oil e respectiva flexibilidade de produção, a anterior rigidez da produção face às variações de procura e as consequentes curvas de preço agressivas na subida e na descida fazem parte do passado. Ao mesmo tempo, a OPEC deixou de representar dois terços da produção mundial, representando hoje menos de um terço da mesma, a par de uma inegável e decrescente capacidade de influenciar o preço. Sendo que, por fim, os movimentos clássicos de matéria-prima de Este para Oeste com a correspondente contrapartida de fluxos financeiros de Oeste para Este, que traziam uma enorme previsibilidade para efeitos de construção de preço, foram substituídos por fluxos de matéria-prima globais e correspondentes fluxos financeiros também globais. Estamos, por isso, não perante um fenómeno circunstancial ao nível da indústria petrolífera, mas perante uma alteração de paradigma no que à indústria petrolífera diz respeito, com inevitáveis consequências em todas as restantes latitudes da equação energética mundial, nomeadamente ao nível da maior ou menor viabilidade das energias renováveis.

Face ao contexto atrás descrito a que é que assistimos?

Assistimos mais do que tudo a decisores políticos (sempre preocupados com as eleições de amanhã) a promoverem decisões populares, para não dizer populistas, que mais não fazem do que torcer a realidade presente comprometendo o melhor modelo futuro. Para comprovar esse facto, vou utilizar o exemplo da promoção do veículo eléctrico e partilhar com os leitores alguns números e factos. As projecções de desenvolvimento do parque de veículos eléctricos apontam para crescimentos anuais de 20% ao ano nos próximos 20 anos, o que apontaria para 100 milhões de veículos eléctricos em 2035. Admitamos que estas projecções são conservadoras e que, por força do desenvolvimento tecnológico, a referida taxa de crescimento é três vezes superior.

Ainda assim, há que perceber que, em função do que se estima vir a ser o mix energético para os próximos 20 anos, tendo em conta que a electricidade consumida pelo veículo eléctrico está muito longe de ser 100% renovável, cada 100 milhões de veículos eléctricos deslocam apenas 1% do consumo mundial de crude. Para já não falar no facto de que no mesmo período e por força do poder de compra crescente nas zonas mais povoadas no Mundo, o parque automóvel mundial duplicará, passando de cerca de mil milhões de veículos para cerca de dois mil milhões de veículos. Por força do que atrás refiro, assistiremos a uma procura mundial de petróleo que, por estes e outros factores, crescerá a uma taxa média anual de cerca de 1%, estimando-se em cerca de 110 milhões de barris diários em 2035. Se somarmos todos os incentivos dados ao veículo eléctrico, directa ou indirectamente estamos a pagar cerca de 1000 euros por tonelada de carbono não emitida, quando hoje existem soluções alternativas para redução de emissões com custos na ordem dos 100 euros por tonelada não emitida.

Poderia, a par deste exemplo mais mediático do veículo eléctrico, referir a agenda de bio componentes (longe de garantirem emissões nulas quando vistos numa lógica agregada) que pouco mais fazem do que alimentar o lóbi agrícola da Europa do Norte e Central ou poderia escrever sobre a indulgência política no que à taxação de queima de carvão diz respeito por força dos interesses da Europa Central nesta fonte abundante nessa mesma geografia.

Pretendi com esta breve nota, tocando na notória promoção do veículo eléctrico (há muitos outros) e percorrendo apenas uma das suas ingénuas latitudes (há muitas mais), provar a falta de solidez das decisões daqueles que estão a influenciar o nosso dia de amanhã. Os decisores políticos não podem, nem devem, promover soluções com base em descriminação positiva de opções em detrimento de outras.

Os nossos decisores políticos têm apenas e só que definir objectivos de redução de emissões nocivas em valor e no tempo, mostrando então sim “mão pesada” sobre todos o que não cumprem. Hoje em dia, apenas 13% das emissões globais é que estão condicionadas por custos de emissão de carbono. Se a taxação das emissões for uma realidade global e massificada, o mercado e os agentes económicos, como sempre, encarregar-se-ão de encontrar as soluções com o melhor custo benefício numa lógica agregada honorando menos o sistema no seu todo. Porque sou um optimista, espero que ainda estejamos a tempo…

Este artigo foi publicado na edição de Junho de 2017 da revista Executive Digest.

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