Randstad Insight: No meu tempo

Por José Miguel Leonardo, CEO Randstad Portugal

As organizações estão em transformação, reflexo da tecnologia mas também, e especialmente, das pessoas. a expressão “no meu tempo…” não tem idade nem tempo para ser utilizada. É ouvida e depois dita, ou pelo menos pensada, porque as gerações são verdadeiramente diferentes e os seus comportamentos alteram-se também pelas transformações sociais.

Hoje, nas empresas, sentimos isso mais do que nunca. Juntamos no mesmo open space o profissional que começou a sua carreira com máquina de escrever e quando a promoção estava associada a um gabinete. O profissional que foi ensinado a planear e a não falhar, a ouvir e a ter um tipo de subserviência à hierarquia que não se reflectia apenas no uso do título mas, também, na forma como se comportava perante a sua chefia. Na geração seguinte, os títulos começaram a cair e os computadores já fizeram parte de toda a aprendizagem. A relação hierárquica é atenuada, o dress code é questionado, porque não é a aparência que reflecte o conhecimento. Se esta combinação já trazia desafios ao clima organizacional, a mais recente geração de talentos trouxe novas exigências às empresas e aos colegas. A ligação à empresa não existe, apenas existe relação com o projecto e empenho com a tarefa. Os talentos dividem-se entre os que têm sede de conhecimento e de experiências e que o exigem diariamente, entre estas pessoas que são naturalmente inconformadas e focadas em fazer, e as que não se ligam e vivem entre os estímulos constantes das redes sociais e da vida real, sensíveis a serem chamadas à atenção e à pressão do dia-a-dia. Aos que desistem facilmente e vivem sem planos.

Debaixo do mesmo tecto, em open space e com políticas de clean desk e hot seat, parece que ninguém faz o fit completo com a realidade das organizações. Entre os que tinham a rigidez dos processos e do planeamento, aos que querem fazer para acertar, mesmo que no caminho falhem, as empresas têm hoje um dos maiores desafios de sempre, um desafio de cultura e de clima organizacional que é para todos uma condicionante de produtividade e de atracção e retenção de talentos.

Neste mix geracional, a própria liderança tem de ser questionada. Será que ela não mudou, de que forma deve ser consumada seja ao nível do CEO, seja de direcção e managers. Como liderar a diferença, manter os pés assentes no dia-a-dia e ter a visão estratégica do amanhã, reconhecendo que as velocidades são diferentes, as maneiras de estar também. A liderança que não tem tempo para ser gerida de 1 para 1, que precisa de mensagens transversais e que tem de ser sentida por todos. Mesmo que seja uma organização lean, tem sempre de existir um maestro de orquestra.

Num mundo em constante transformação, onde todos têm o seu tempo, liderar as organizações e gerir pessoas é um desafio. Um desafio que não deve nem pode ser descurado porque são as pessoas que marcam a diferença nos negócios, porque por mais digital que seja a empresa, as relações são e serão sempre de pessoa para pessoa. Conhecer as gerações, identificar as diferenças e desenvolver a liderança através do treino e da humanização das relações pode ser a chave para responder a este desafio. Os líderes têm, eles próprios, que se transformar, de fazer o seu processo de reconhecimento da mudança e garantir esta bipolaridade entre o dia-a-dia e o amanhã estratégico da sua empresa. Os líderes têm muitas vezes que viver no silêncio para garantir o equilíbrio sempre com objectivos estratégicos e focados no sucesso das suas pessoas, que será o sucesso da sua empresa.

No meu tempo não era assim, era diferente e isso não é mau, nem nunca será, porque a vida vai-se transformando e nós devemos ir fazendo esse caminho, ultrapassando as resistências naturais e humanas de quem tem de sair da sua zona de conforto.

No meu tempo era assim, mas hoje é diferente, e ainda bem que o é.

Artigo publicado na edição n.º 137 de Agosto de 2017 na revista Executive Digest

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