Desempregado, mas Dr.

Por Paulo Carmona

Nos governos anteriores foi-se abrindo mais a possibilidade do ensino vocacional. Se um aluno deseja ser mecânico como o primo ou canalizador como o tio, por que é que o sistema tem de o preparar para a universidade?

O último relatório da OCDE sobre Portugal, apresentado dia 7 de Fevereiro, é um diagnóstico bastante apurado sobre a nossa situação económica, apontando progressos e lacunas, digamos críticas construtivas, que nos poderão ajudar a corrigir e melhorar o nosso bem-estar e a competitividade da nossa economia.

Muitas das recomendações fazem coro com outras análises do FMI e da União Europeia, e convenhamos que é muito difícil três entidades reconhecidas e independentes entre si estarem simultaneamente erradas.

Um dos aspectos mais focados no relatório é a questão da formação ou, neste caso, a falta dela, dos trabalhadores portugueses.

Um dos dados mais relevantes é a percentagem da população que terminou o ensino secundário, apenas 45%. Se incluirmos esses dados num gráfico comparativo com outros países da OCDE vimos que Portugal aparece destacado na cauda da Europa e bem longe dos seus parceiros (o mais perto é Espanha, com 57,4%). Se juntarmos a isto o custo horário de trabalho, temos Portugal com custos de trabalho 20 a 30% acima de outros países, como a República Checa, Eslováquia ou Polónia, onde a percentagem da população que terminou o secundário é de 91 a 93%.

Conclusão, os portugueses são em geral menos formados e mais caros do que outros cidadãos de países do mesmo nível económico e que concorrem connosco na captação de investimento estrangeiro.

No último Congresso da CIP, num interessante debate sobre como os estrangeiros olham para as competências da economia portuguesa, um dos temas foi o da falta de formação técnica dos portugueses.

O sistema de ensino tem-se preocupado em criar licenciados teóricos, com pouca aplicação prática nas empresas, enquanto “matava”, por questões ideológicas ridículas, o ensino técnico.

A ambição tem sido “fabricar” doutores, mesmo que só conseguissem emprego como caixas de supermercados. A ascensão social, e muito desemprego, vem com o “canudo”.

Isto assumiu proporções tão ridículas que um dos temas que atrasou a conversão das licenciaturas em 3+2, o processo de Bolonha, foi a insistência portuguesa de que os três anos eram uma licenciatura. Portanto, quando acabassem o curso de três anos já podiam ser tratados por doutores. Como a Europa se ri de nós…

Nos governos anteriores foi-se abrindo mais a possibilidade do ensino vocacional. Se um aluno deseja ser mecânico como o primo ou canalizador como o tio, por que é que o sistema tem de o preparar para a universidade? É um sistema que lhe é desinteressante e abre as portas ao abandono escolar.

Saem da escola para aprender um ofício, uma atitude racional, pois serão melhor remunerados que muitos dos licenciados produzidos anualmente em Portugal.

Parece que este pragmatismo do ensino técnico-vocacional, em prol do emprego e das necessidades das empresas, está novamente a ser vencido pelas concepções ideológicas classistas e ultrapassadas, de produção de doutores desempregados.

Um dos sintomas foi o aumento do abandono escolar, em 2016, pela primeira vez em seis anos… não dá para ter bom-senso?

Este artigo foi publicado na edição de Março da revista Executive Digest.

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