A dessintonia!

Por Ricardo Florêncio

Diz-se que os portugueses têm tendência para o pessimismo. As coisas nunca estão bem. É raríssimo ouvir uma resposta positiva à pergunta “Então como vai isso?”. E têm a capacidade de antever que vão ainda ficar pior, como se fossem hipocondríacos do pessimismo.

Verdade? Talvez não, pois parece que estão a mudar. Alguns classificam como sendo ignorância, outros como inconsciência, outros ainda acusam as pessoas de leviandade. Independentemente do termo que se queira utilizar, parece que os portugueses estão fartos deste pessimismo. Os índices de confiança estão em alta, o consumo está a aumentar, ou seja, há um conjunto de indicadores que dão azo a esta reflexão. Por outro lado, uma boa parte das empresas acabou por apresentar bons resultados em 2016. Bons em volume, mas não tão bons em rentabilidade… Assim, como será 2017? É evidente, que há uma certa e clara dessintonia entre esta situação e os sinais que vamos recebendo ao nível da macroeconomia, e de alertas provenientes de todos os lados. Falta de investimento, baixo crescimento, aumento das taxas de juro no mercado da dívida, etc. Poder-se-á pensar que os portugueses estão com algum optimismo, as empresas estão expectantes, a economia está preocupada. Mas o que é um facto é que os portugueses cansaram-se de discursos e perspectivas negativas, e de grandes anunciadores de desgraças, e optaram por viver o dia-a-dia, retirando dele o melhor proveito.

Alguns invocam que não aprendemos nada com as crises passadas, e com todas as causas que nos levaram a chegar a esse ponto. Infelizmente tenho de lhes dar razão. Mas os portugueses estão noutra. O que virá, virá. E quando vier, logo se tratará dele. Até lá, e como diz o velho ditado popular, “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”.

Editorial publicado na edição de Fevereiro de 2017 da revista Executive Digest

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