Crescer o negócio através de inovação? Os ecossistemas digitais fazem parte da solução

No mundo empresarial actual, a inovação aberta ou co-inovação entre organizações, independentemente da sua dimensão e localização, é um factor crítico de sucesso para os negócios.

Por José F. Gonçalves, presidente da Accenture Portugal

No mundo empresarial actual, a inovação aberta ou co-inovação entre organizações, independentemente da sua dimensão e localização, é um factor crítico de sucesso para os negócios.

O recente estudo da Accenture (Seis passos para construir um ecossistema digital visando a inovação e o crescimento) aponta nesse sentido e conclui que 97% das maiores empresas reconhecem que a sua capacidade de colaborar e inovar de forma eficaz com outras entidades será importante ou crítica para o seu alto desempenho futuro.

E o potencial de criação de valor é verdadeiramente impressionante: uma colaboração mais eficaz entre as 20 maiores empresas do mundo com empreendedores implicaria um acréscimo de 1,5 triliões de dólares no PIB global, correspondendo a um aumento de mais de 2%.

Por outro lado, tendo por base o track record das organizações com melhor desempenho em termos de co-inovação, existe um potencial de crescimento dos negócios até 16%.

Mas a verdade é que a capacidade de co-inovar se tem revelado um enorme desafio para a maioria das empresas.

De acordo com o mesmo estudo, a taxa de sucesso da colaboração em inovação é de apenas 44%. A solução para este problema passa pela capacidade das empresas desenvolverem uma nova e fundamental capacidade de negócio: identificar e co-inovar com os parceiros certos, através de plataformas digitais que promovam a colaboração rápida, fácil e segura, com benefício para todos os intervenientes. Ou seja, criarem e manterem um ecossistema digital eficaz e eficiente.

Através destes ecossistemas digitais, consegue-se potenciar o know-how e expertise da cada organização para criar produtos e serviços inovadores e alargar a oferta a novos mercados e clientes à escala global. Áreas como a saúde, veículos conectados ou casas inteligentes assumem lugar de destaque num mundo em que as organizações procuram vencer a concorrência no mundo digital em que vivem.

As empresas que estão na liderança nestes sectores são aquelas que sabem como acelerar o processo de desenvolvimento de novas capacidades, produtos e serviços e experiências, e como as aplicar de forma mais rápida que os seus concorrentes.

Respeitando os limites corporativos e éticos, estas organizações partilham ideias e soluções relevantes para o mercado com outras empresas, independentemente da sua dimensão.

Apesar dos desafios referidos pelas organizações na capacidade de co-inovar, existem exemplos relevantes que demonstram o valor criado pela colaboração baseada em ecossistemas digitais. A Kaggle, uma startup de Sillicon Valley, utiliza a colaboração entre uma comunidade alargada e global de cientistas para resolver problemas de machine learning e data science através de uma plataforma digital.

A Amazon Mechanical Turk, um marketplace digital que permite a colaboração entre indivíduos e empresas para trabalhos que requerem inteligência humana, dá acesso a uma workforce global e elástica, disponível na plataforma em função da procura.

A GENIVI alliance, baseada em Geneva, é constituída por membros dispersos por todo o mundo e tem por objectivo o desenvolvimento colaborativo de plataformas open source para veículos conectados e inteligentes.

Esta aliança congrega empresas e investigadores de vários sectores, do automóvel à informática, passando pela electrónica de consumo e telecomunicações. Os membros deste projecto raramente se encontram fisicamente, interagindo à distância.

Apenas 20% dos processos de inovação são desenvolvidos em reuniões presenciais. Para além do impacto relevante na redução de custos, há ganhos substanciais na rapidez e eficácia das discussões.

Tomando como ponto de partida estes exemplos, conclui-se que os ecossistemas digitais são um verdadeiro repositório de oportunidades à disposição das empresas e organizações para acelerarem os processos de inovação. A base está numa colaboração aberta, mas com regras ou comportamentos bem assimilados, que vão desde a definição clara da estratégia a adoptar, ao foco na experiência do cliente, passando pela adopção de uma cultura aberta e protecção da propriedade intelectual de cada parte envolvida.

Em termos estratégicos, há que definir os resultados partilhados a alcançar e transmitir a todos os envolvidos qual o retorno do investimento e que compromissos serão repartidos no processo. As boas ideias deverão ser executadas e não perdidas em discussões teóricas.

De referir que, segundo o estudo da Accenture, 82% dos executivos de empresas que se consideram pouco colaborativas e abertas à co-inovação consideram que este problema pode ser ultrapassado mais facilmente através da adopção efectiva de ecossistemas digitais. Adicionalmente, é necessário desenvolver uma cultura de inovação e adaptar o modelo operativo.

Os colaboradores da empresa devem estar motivados para desenvolverem a sua rede de contactos externos, captando novas ideias e discutindo e experimentando novas ferramentas digitais que favoreçam a cooperação eficaz.

O espírito de abertura e incentivo à inovação deve começar nos líderes, que deverão incentivar os seus colaboradores a inovar e a assumir riscos calculados – no fundo, a viver uma cultura de inovação.

Para que o processo de partilha tenha sucesso, o modelo operativo adoptado deverá procurar o equilíbrio entre a colaboração física e a colaboração virtual. As tecnologias digitais “aproximam” as empresas com objectivos similares, eliminando as restrições de localização geográfica e favorecendo reuniões virtuais entre os investigadores e estrategas das empresas envolvidas.

Mas a partilha e espírito de colaboração não significa a devassa ou a perda de identidade de cada um. Abertura sim, mas sem baixar a guarda. As empresas devem manter a sua identidade e essência competitiva.

No mundo digital em que vivemos e trabalhamos, os ecossistemas digitais permitem novos e mais eficazes modelos de colaboração. Os líderes das organizações devem compreender e capturar o enorme potencial associado de modo a criar novos negócios e fontes de receita através da inovação.

Este artigo foi publicado na edição de Fevereiro de 2016 da revista Executive Digest.

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