Não faça nada!

Por Paulo Carmona

Fui surpreendido com a morte de J. Keith Murnighan em Junho deste ano. Foi o professor da Universidade de Kellog que mais interpelava e inquietava os seus alunos, com um nível de comunicação ímpar.

A mim, foi o que mais me marcou. Esta coluna não é nem pretende ser um obituário, mas reflectir sobre temas de gestão e actualidade, e nada melhor para celebrar a vida dum excelente mestre do que continuar o seu trabalho de inquietação dos gestores e de autocrítica à sua capacidade de liderança efectiva, de equipas e organizações.

A sua tese, versada num seu mais recente livro “Do Nothing! How to Stop Overmanaging and Become a Great Leader”, editado em Junho de 2012 pela Portfolio/Penguin, é simples, muitos gestores sobregerem (soa melhor em inglês overmanage).

Quantos líderes conseguem estar duas semanas de férias sem se preocuparem com a leitura de emails ou contactos com a empresa a certificarem-se que tudo está a correr bem?

E regressarem e verem que a organização obteve sucessos vários e que funcionou muito bem na sua ausência. Muito poucos, talvez os melhores. Porque um verdadeiro líder consegue ter uma capacidade de organização, motivação e definição de objectivos na organização que torna supérfluo o acompanhamento, ou intromissão, diário no controlo e correcção do trabalho das equipas.

Talvez porque comunicou mal, estabeleceu mal os objectivos ou montou estruturas deficientes incapazes de avançarem sozinhas.

Um gestor que acompanha as suas equipas transmite insegurança e dificuldade de autonomia ou tomada de decisões sem a habitual presença do chefe, uma menorização do talento e da capacidade dos seus elementos.

Contudo, o Do Nothing não é um convite à preguiça. Pelo contrário, é encontrar um importante espaço e tempo para reflexão sobre a estratégia global da empresa, ou seja, difícil de conseguir olhar para a floresta se todos os dias andamos a controlar as folhas ou as árvores…

Sem uma visão estratégica da empresa, bom… nós sabemos, tem tudo para correr mal, tão embrenhados andamos com os assuntos correntes, sobre os quais os líderes têm se ser supérfluos e desnecessários. Não confundir com o “Managing by walking around”, uma forma de influenciar e motivar as organizações ao passear pelos corredores, mas também utilizado por control-freaks para entrarem e participarem em reuniões sem aviso e tolhendo muitas iniciativas, inibidas perante o líder.

Grande desafio, construir e liderar uma organização que não necessite de líder no dia-a dia. Claro que existem decisões com um nível de compromisso tal que terá de ser tomado a um nível mais elevado de comando mas, aí, exige-se um equilíbrio, ou um espírito crítico, para não se generalizar, autonomizando o mais possível o talento dos activos humanos da organização.  Difícil, mas vale a pena tentar…

Obrigado professor Keith, pela diferença que fez nos seus alunos.

Este artigo foi publicado na edição de Novembro da revista Executive Digest.

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