ed-conferencia-6-programaOs empresários devem «procurar novas formas de capitalizar as suas empresas», através da abertura a novos sócios, a investidores estrangeiros ou a investidores diferentes», aconselhou António Pires de Lima, ministro da Economia, na VI Conferência Executive Digest, que decorreu ontem na Católica Porto Business School, sob o tema do papel da indústria na economia portuguesa.

“A Contribuição da Indústria para o desempenho global da economia” foi o mote da VI Conferência Executive Digest, onde o ministro da Economia destacou as indústrias em que Portugal tem vantagens competitivas, como o calçado (em que o País vende produtos com o segundo preço mais elevado a nível mundial) e a agroindústria. Mas o País tem conseguido afirmar-se pela aposta de multinacionais em construir centros de competências técnicas em Portugal, o que resulta de factores como a qualidade da formação dos portugueses. «Estamos a falar de investimentos em pessoas», afirmou António Pires de Lima, reforçando que a falta de produtividade não deve ser atribuída aos colaboradores. «A responsabilidade de criar nas empresas modelos de negócio sustentáveis é dos empresários, é dos líderes das empresas», explicou o ministro. «Quando bem geridos, os trabalhadores portugueses são do melhor que há», rematou.

Sobre as estruturas de capital das empresas portuguesas, António Pires de Lima defendeu a importância do investimento diversificado para o sucesso. E deste para o crescimento que, de acordo com o ministro, já está a acontecer. «Acredito que este processo de crescimento que estamos a viver será sustentável e poderoso, com taxas de crescimento claramente superiores a 2%, se este tema do desafio da capitalização das empresas for bem resolvido».

Portugal vai “crescer acima das previsões”
Num discurso de tom optimista, António Pires de Lima denotou que o PIB português «cresce há três trimestres consecutivos» e mostrou-se confiante face à evolução da economia. «Estou convencido que o crescimento da economia portuguesa em 2014 e 2015 será maior do que as projecções macroeconómicas indicam e que haverá condições para o crescimento sustentado depois disso», referiu. Na base desta visão está ainda o caminho de Portugal na correcção do défice que Pires de Lima considera ter sido feita por «mérito das empresas e do sector privado».

A evolução das exportações portuguesas, que passaram de 28% para 40% do PIB, foi um dos aspectos focados pelo antigo CEO da Unicer, que defende que é preciso continuar a apostar nos bens transacionáveis e «numa cultura de orientação para o estrangeiro».

«Um dos aspectos mais interessantes da economia portuguesa no último ano é o empreendedorismo», afirmou o ministro da Economia, sublinhando que nasceram 35 mil novas empresas em 2013, o melhor número em seis anos.

Na conferência dedicada à discussão sobre o presente e futuro da indústria portuguesa, António Pires de Lima salientou ainda que o turismo cresceu 10% nos primeiros dois meses de 2014, depois de ter tido, em 2013, o melhor ano de sempre neste sector.

Que política para a indústria?
A intervenção do ministro da Economia, keynote speaker da conferência, lançou o mote para a mesa redonda que reuniu Alberto Castro, vice-presidente da Associação Comercial do Porto e professor da Católica Porto Business School; Manuel Carlos, secretário-geral da APICCAPS; Luís Reis, presidente da APED e chief corporate center officer da Sonae; Rui Freire, administrador da Unicer; e Tiago Lousada, vice-presidente da Accenture.

Manuel Carlos, representante das indústrias associadas ao calçado, explicou que este que é actualmente um dos sectores portugueses de maior sucesso soube incorporar a inovação nas suas formas tradicionais de produção, por via da experiência adquirida e de associação a instituições de ensino, por exemplo. O calçado «teve sempre uma atitude positiva», que lhe permitiu vencer desafios como o da reputação internacional. O secretário-geral da APICCAPS aconselhou os empresários a apostarem numa «comunicação eficaz», no design e no marketing como forma de valorizarem os seus activos. Sobre a indústria do calçado, enfatizou a necessidade de captar o talento jovem para a indústria.

Para Luís Reis, «há uma série de indústrias em que Portugal tem vantagens competitivas naturais» e que podem ter efeitos directos na exportação, como a produção alimentar e os sectores associados ao mar. Por outro lado, é tão importante exportar como «substituir as importações», referiu o presidente da associação de empresas de distribuição e representante da Sonae.

Já Alberto Castro manifestou-se contra a expressão «reindustrializar» e defendeu que resulta «de alguns erros». Para o vice-presidente da Associação Comercial do Porto, um destes «erros» foi a prossecução de uma «política fragmentada» que privilegiava alternadamente indústria ou serviços. Hoje, é preciso fazer «uma reconfiguração» dessa política, que deve ter uma visão «integrada» sobre a indústria e os serviços, defende.

Tiago Lousada, vice-presidente da Accenture, introduziu a necessidade de um maior apoio à Investigação e Desenvolvimento, assim como na área da formação. Apostar na inovação para conseguir competitividade é, reforça, uma prioridade.

Por sua vez, Rui Freire focou-se na dificuldade das indústrias portuguesas em alcançar escala, situação que deriva de duas condições extensíveis à Europa: «somos pequenos e somos velhos», explicou. Administrador da Unicer, Rui Freire exemplificou esta ideia com uma situação própria do sector cervejeiro. «A Super Bock sem álcool é uma inovação que tem anos» e o facto de a Unicer deter a patente deste produto consistiu, segundo o representante da empresa, uma vantagem competitiva em particular junto do mercado do Médio Oriente, por se encontrarem aqui «300 milhões» de consumidores «que não bebem álcool». Quando o mercado interno não permitiu conquistar escala, as empresas devem procurá-la no estrangeiro, rematou.

A qualidade da gestão nas empresas portuguesas
O encerramento da conferência esteve a cargo de Álvaro Nascimento, professor da Católica Porto Business School e chairman da Caixa Geral de Depósitos, que apresentou a sua visão pessoal sobre o tema da indústria na economia através da apresentação de um estudo sobre a organização, estratégia e financiamento das Pequenas e Médias Empresas (PME).
De acordo com o docente, Portugal está em 14.º lugar entre 20 países no que respeita à qualidade da gestão das suas empresas, com muitos casos de boa gestão e outros tantos com gestão «muito má». As empresas com uma qualidade de gestão mais baixa têm, geralmente, estruturas familiares, enquanto empresas de capital disperso, por exemplo, recolhem melhores resultados.

Álvaro Nascimento prefere destacar os factores competitivos de todos os sectores de actividade em Portugal, em vez de salientar as indústrias com mais vantagens competitivas, uma vez que existem «empresas de má gestão» em todos os sectores.

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