iii-conferenciaEnquanto o ímpeto exportador domina a discussão pública, outros vectores da economia portuguesa devem ser contemplados como parte da solução para a crise portuguesa. A captação do investimento directo estrangeiro e a verdadeira internacionalização das empresas são cruciais para afirmar a economia portuguesa a nível global.

«Portugal, solução externa» foi o tema da III Conferência Executive Digest, que teve lugar no hotel Dom Pedro, em Lisboa. Reconhecendo os sinais positivos da evolução das exportações portuguesas, os oradores convidados apontaram que este esforço não é suficiente para a recuperação da economia – há que estimular o tecido empresarial através da captação de financiamento no exterior.

A evolução positiva da balança comercial ainda não é «premonitória» de uma alteração efectiva na economia portuguesa, assegurou António Nogueira Leite, vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD).

País estável sem investimento

«O que fazer para tornar Portugal mais atraente ao investimento externo?» foi a pergunta colocada ao painel, que contou ainda com a participação de Jorge Cruz Morais, administrador da EDP; João Duque, presidente do ISEG, e Rui Semedo, chairman do Banco Popular.

«Temos de perceber qual é o nosso produto de atracção do capital» para conseguir concorrer pela instalação de empresas internacionais em Portugal, acrescentou Jorge Cruz Morais. O primeiro factor atractivo para os investidores é a estabilidade política e social. Portugal pode oferecer também boas infraestruturas, desde os portos às ferrovias. A localização geográfica e a qualidade do capital humano são também pontos positivos para quem planeia investir em Portugal. Mas uma «fiscalidade clara» e uma «justiça que funcione» são condições básicas para a fixação de empresas.

A administração pública é, para João Duque, um problema grave da economia portuguesa, uma vez que «não está verdadeiramente focada no serviço que presta». A longa espera para a atribuição de licenças leva a que se perca o «ímpeto inicial e a paixão pelo investimento».

«O problema do País é institucional», concordou Rui Semedo. O presidente do conselho de administração do Banco Popular introduziu um conceito que se estendeu à segunda mesa redonda da conferência – «temos enorme dificuldade de execution», ou seja, na implementação dos planos e estratégias.

No debate de Portugal como solução externa, há um elemento fundamental: olhar as importações. Para Jorge Cruz Morais, o País tem enorme potencial para produzir bens que está a importar, de que são exemplo o sector da energia, o calçado e os têxteis. Já Rui Semedo considerou que a simplificação é a tarefa mais premente. A justiça precisa de se tornar mais simples, o que permitirá ao País tornar-se mais competitivo.

Língua portuguesa no mundo
Não raras vezes, exportar e internacionalizar confundem-se e toma-se uma pela outra. Henrique Neto, empresário e fundador da Iberomoldes; Gonçalo Rebelo de Almeida, director de marketing e vendas do Grupo Vila Galé; Luís Pedro Duarte, partner da Accenture; e Rui Paiva, CEO da WeDo Technologies, explicaram a diferença entre os dois conceitos trazendo para o debate os exemplos reais das suas empresas.

A internacionalização distingue-se da exportação porque requer organização, esclareceu Rui Paiva. Tem início com a venda de produtos a mercados estrangeiros, seguindo-se a instalação de operações noutras geografias. Por fim, é preciso «criar». A WeDo Technologies «levou seis anos a internacionalizar-se», explicou o presidente executivo da empresa.

«O País tem de ter presente e assumir de corpo e alma a sua vocação atlântica», afirmou Luís Pedro Duarte. A língua portuguesa – que tem sido mencionada como uma língua para o futuro no mundo dos negócios – é uma aposta para internacionalizar a economia, defendeu o responsável da Accenture. A afirmação das empresas no estrangeiro por via da sua portugalidade pode ser uma estratégia para a internacionalização.

«Quase todos os governos enviaram os seus ministros dos Negócios Estrangeiros aos países de língua portuguesa», comentou Henrique Neto. Contudo, falha depois o acompanhamento dessas relações, apontou o empresário recuperando a ideia de execução presente no primeiro painel. (Será a execução frustrada um problema cultural, perguntou a audiência).

Para os hotéis Vila Galé, a internacionalização para o Brasil não se baseou totalmente na proximidade linguística. A entrada no mercado brasileiro, há 11 anos, pautou-se antes pela aprendizagem «daquela realidade», conta Gonçalo Rebelo de Almeida. O director de marketing e vendas do grupo defendeu que as marcas nacionais são fortes neste sector, embora não se associe a qualidade dos seus produtos aos nomes e marcas de origem portuguesa.

Mas se ambos os painéis convergiram na opinião de que a gestão portuguesa falha no momento da implementação dos planos, Rui Paiva acrescentou que «o problema não é tanto de execução mas de estratégia» e que «falta pensar». Nos planos de internacionalização, há que tecer uma estratégia clara e enviar para as regiões onde a empresa pretende entrar os melhores recursos humanos.

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